segunda-feira, 18 de agosto de 2008
ENTREVISTA
Segue abaixo entrevista que fiz com o escritor de Porto Alegre, Antônio Xerxenesky.
Eu havia começado um novo romance. Ele era, como o Areia nos Dentes, um pastiche, que trabalhava com a dissolução da fronteira entre alta e baixa cultura. Se em Areia nos Dentes meu objetivo foi criar uma obra densa e poética a partir de faroestes toscos, meu objetivo com esse segundo romance era fazer isso com a ficção-científica. Entretanto, após um momento de crise, decidi apagar tudo. O livro ia sair quase um "Areia nos Dentes 2", e eu me recuso a cair nessa repetição. Preciso explorar novos territórios, novos estilos. A conferência recente do músico Philip Glass em Porto Alegre foi especialmente marcante para mim. Todos os artistas dizem que o jovem artista precisa encontrar sua voz, certo? Pois Philip Glass, quando perguntado porque fazia coisas tão diferentes sempre, respondeu que o artista deve perder sua voz, deve constantemente se colocar em um lugar onde não sabe o que fazer. Então, no momento me encontro neste lugar. Estou com algumas idéias, quero pensar quão longe posso levá-las.
1. 2008 foi um ano de grande importância na sua carreira, devido ao lançamento de Areia nos Dentes, que inclusive recebeu várias críticas favoráveis. Em que aspectos a sua criação e recepção foram diferentes dos seus trabalhos posteriores? Quais foram as principais diferenças (ou dificuldades) que você sentiu, ao fazer um romance de mais de 100 páginas, quando era mais acostumado com contos?
Pois bem. A primeira grande diferença é que acho que encontrei "meu lugar". Acho que trabalhando com narrativas mais longas consigo desenvolver melhor meu estilo do que em narrativas curtas. Olhando para trás, quase todos os meus contos antigos tem algo de "apressado", como se ficassem melhor se fossem desenvolvidos em mais páginas. Deve existir algo de profundamente tagarela em mim. A segunda diferença, e essa é qualitativa, se trata de que meus primeiros contos eram muito confessionais, muito presos ao meu próprio ponto de vista. O meu romance representou uma superação do meu próprio ponto de vista, e é, portanto, uma obra muito mais madura, e acredito que foi por isso que a crítica gostou mais.
2. No ano passado, o seu conto O Desvio foi adaptado para a TV. Como foi essa experiência? O resultado saiu de acordo com suas expectativas? E de forma os leitores podem conferir a obra (internet, dvd)?
Tive sorte de que o diretor que adaptou meu conto era um amigo meu. O roteiro dele foi extremamente fiel ao conto original, mudando apenas uns palavrões que não podiam ser veículados ao meio-dia na TV. Além disso, participei das escolhas de elenco e ainda acompanhei um dia de filmagem. Claro, não ousei dizer nada sobre o processo, não sugeri um ângulo de câmera, nada. A obra do diretor é a obra do diretor, separada da minha. Acho que o resultado ficou muito bom, bem fotografado. Considerando o limite de orçamento, é difícil imaginar algo melhor.
Ainda sobre a experiência, o mais estranho foi ver dezenas de pessoas se mobilizando, milhares de reais sendo gastos, tudo isso por causa de um texto que escrevi uma madrugada qualquer em meu quarto. A diferença entre a produção literária e cinematográfica é uma diferença de reclusão e solidão. Eu, pessoalmente, nunca conseguiria dirigir um filme, só de pensar que teria que lidar com tanta gente.
O curta pode ser conferido no site do ClicRBS, aqui.
Ainda sobre a experiência, o mais estranho foi ver dezenas de pessoas se mobilizando, milhares de reais sendo gastos, tudo isso por causa de um texto que escrevi uma madrugada qualquer em meu quarto. A diferença entre a produção literária e cinematográfica é uma diferença de reclusão e solidão. Eu, pessoalmente, nunca conseguiria dirigir um filme, só de pensar que teria que lidar com tanta gente.
O curta pode ser conferido no site do ClicRBS, aqui.
3. Atualmente você é um dos editores da Não Editora. Você faz parte dela desde sua criação em 2007? Caso não, como foi sua iniciação? O que a diferencia das outras editoras? Você já planejava lançar Areia nos Dentes por ela, ou vocês se "encontraram ao acaso"?
Faço parte da Não Editora desde sua gênese, que foi em uma reunião no Gibi Bar. Conheci os outros editores porque todos nós participamos da coletânea Ficção de Polpa Volume 1, lançada pela Fósforo. O Areia nos Dentes estava 70% pronto na época que entrei na Editora, então já tinha planos de lançá-lo através dela. Foi um ótimo timing. Se não fosse pela Não Editora, provavelmente o livro teria recebido um descaso muito grande em termos gráficos de qualquer outra editora pequena, já que não sou famoso o bastante para publicar em um grande editora.
4. Na próxima sexta (19), você vai para são paulo, participar do projeto invisibilidades, em uma discussão sobre a ficção científica no pós-modernismo. Fale-nos sobre o projeto, como se deu o seu envolvimento nele e em como o assunto do debate se relaciona com o seu trabalho.
Conheço muito pouco do projeto. Recebi o convite para participar nele do Fábio Fernandes, um dos maiores especialistas em ficção-científica do Brasil. Ele gostou muito do meu romance, por isso o convite. Como o tema se relaciona com minha obra? Bom, meu romance com certeza não é ficção-científica, mas foi classificado por leitores e críticos (inclusive pelo Daniel Galera, na orelha) como pós-modernista. Considerando que sou um bom leitor de ficção-científica e que gosto de trabalhar dentro de gêneros, acho que posso pensar em algumas coisas interessantes para falar. Há poucos exemplares de obras de sci-fi que possam ser vistas como pós-modernistas, até porque boa parte dos escritores de gênero só lêem o próprio gênero. Acredito, entretanto, que todo bom escritor só deve trabalhar com um gênero se tiver o objetivo de transcendê-lo. Philip K Dick, na minha opinião, foi um dos melhores escritores de ficção-científica porque era um grande leitor de Joyce e Proust, e se nota isso na sua prosa. O título da mesa-redonda que participarei se chama "Por uma ficção-científica pós-moderna", e acho essa uma proposta interessantíssima, pois muitas das preocupações da ficção-especulativa se aproximam dos questionamentos teóricos propostos pelo pós-modernismo.
5. Está escrevendo algum novo romance? Tem algum projeto pessoal que pretende realizar dentre os próximos meses, ou anos?
Eu havia começado um novo romance. Ele era, como o Areia nos Dentes, um pastiche, que trabalhava com a dissolução da fronteira entre alta e baixa cultura. Se em Areia nos Dentes meu objetivo foi criar uma obra densa e poética a partir de faroestes toscos, meu objetivo com esse segundo romance era fazer isso com a ficção-científica. Entretanto, após um momento de crise, decidi apagar tudo. O livro ia sair quase um "Areia nos Dentes 2", e eu me recuso a cair nessa repetição. Preciso explorar novos territórios, novos estilos. A conferência recente do músico Philip Glass em Porto Alegre foi especialmente marcante para mim. Todos os artistas dizem que o jovem artista precisa encontrar sua voz, certo? Pois Philip Glass, quando perguntado porque fazia coisas tão diferentes sempre, respondeu que o artista deve perder sua voz, deve constantemente se colocar em um lugar onde não sabe o que fazer. Então, no momento me encontro neste lugar. Estou com algumas idéias, quero pensar quão longe posso levá-las.
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